quarta-feira, 18 de março de 2015

Para além da nutrição... a adolescência, o corpo e a comida

Certo dia, há mais de um ano atrás, entra uma menina no meu consultório que me faz reviver alguns sentimentos meus quando tinha precisamente a idade dela. Hoje em dia, continua a vir à consulta, sempre que pode.
Sempre que pode, porque para isso precisa de fazer uma viagem longa, muito longa. Sim. Mas não irei falar sobre ela e antes de uma parte que ressoou em mim.
A adolescência é vivida de forma completamente distinta de pessoa para pessoa e a intensidade, essa... pode ser amena ou verdadeiramente abrupta. E todas estas formas estão certas, pois foram as necessárias para sermos o que somos hoje. É o que acredito.
Cresci a querer ser artista, não sabia muito bem a fazer o quê, mas adorava pintar, desenhar... e acumulei centenas de desenhos de vestuário, de gente... conhecida e desconhecida. O que mais me atraía era trazer o interior da pessoa para o papel, através do sombreado do lápis 3B em papel Canson...
Chego ao 12, 13 anos e um outro interesse desde pequenina é intensificado - a alimentação saudável. No entanto, na adolescência o carrossel facilmente descarrila e o interesse virou obsessão. A medicina chama-lhe uma tal de Ortorexia, mas para mim pouco importa se tem um nome no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), se não servir como meio de auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal. 
Conseguem imaginar uma miúda de uma família de poucos recursos há... quase 20 anos (já??), que cresce em Fátima, onde não havia muitas coisas para além do Santuário e tudo o que o envolvesse, obrigar a mãe a levá-la a Leiria para comprar e descobrir novos alimentos... mais naturais, mais especiais e todos os livros sobre o tema? A alimentação lá de casa não era má, até hoje o azeite que utilizo diariamente vem daquelas oliveiras, assim como muitos outros produtos, mas o arroz integral, o leite de aveia e o tofu biológicos não se vendiam nos supermercados.
O problema era quando havia festas de família, ninguém podia fazer doces, tinha de ser apenas eu, fosse alguém pôr açúcar, e eis que surge um pudim, cujas caras após prová-lo, até hoje ficaram na minha memória, vá lá saber-se porquê...
Anos depois entro na (pseudo)independência dos 18 anos e vou para Lisboa estudar. Aí sim, já podia apanhar o metro até à Baixa-Chiado e continuar a explorar o fascinante mundo da nutrição e da alimentação natural e macrobiótica. Dois anos depois concluí que o melhor curso de Ciências da Nutrição era apenas na Universidade do Porto e lá fui eu a correr atrás do sonho de ser nutricionista. Valeu a pena o esforço de trabalhar em vários sítios nas férias e aos fins-de-semana, desde os 14 até ao penúltimo ano da faculdade, sobretudo na área da restauração e hotelaria, o que há mais em Fátima até hoje, tudo muito vocacionado para os peregrinos e os turistas. Foram experiências importantes no meu crescimento pessoal. E fez-me gostar ainda mais de estudar... (a partir da visão do copo meio cheio)

Entretanto, depois de alguns anos de clínica, está diante de mim, uma menina com uns olhos grandes e ternurentos, dos quais escapam duas lágrimas gordas, daquela cara de anjo, que procura o que eu queria ter encontrado quando tinha a sua idade: alguém que a compreendesse e a ajudasse. Tinha uma amiga, que não a largava, nem no sono a deixava em paz... controlava todos os seus comportamentos, sobretudo os alimentares e os que se relacionavam com a comida. Hoje em dia, elas têm procurado fazer as pazes, pois como são a mesma pessoa, não podiam continuar às brigas por muito mais tempo.

É em alturas como esta que sentimos o quão grande é a distância entre o conhecimento teórico e a experiência da vida. Que temos de construir pontes, que sem pontes não conseguimos chegar ao outro lado. E que de fato, não somos ilhas desertas, mas aldeias e cidades bem complexas e interligadas umas às outras.

Lea Caniço

Esta minha reflexão fez-me lembrar agora aquele poema da Cora Coralina, que vou transcrever em baixo:

Saber Viver 

"Não sei...
Se a vida é curta
Ou longa demais para nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar"

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